Filha da escuridão. Seu corpo era recoberto por escamas e exalava um odor terrível, proveniente da toca em que habitava. Na boca, dentes afiadíssimos escondiam a língua fina e bifurcada. Seus olhos não tinham vida. Estavam ali simplesmente para compor o conjunto sinistro da sua face. A longa cauda reptiliana deixava um rastro pegajoso por onde passava. E aquilo não era bem um andar: a criatura arrastava-se, como quem carrega nas costas o peso de toda a injustiça do mundo. Era uma criatura sórdida, extremamente perigosa e traiçoeira. E, por incrível que pareça, a sua torpeza era mais evidente em suas atitudes do que em sua aparência. Mas havia outra coisa. Talvez o maior perigo de todos: ninguém desconfiava de absolutamente nada. Ela era livre para cometer barbaridades, sem o menor sinal de reação de quem quer que fosse. E cometia muitas… Por que motivo ela passava despercebida? Seria algum tipo de feitiço? O fato é que toda aquela aberração física tornava-se imperceptível, no momento em que a criatura vestia a sua capa preta e empunhava o seu martelo.